Estou aposentado. E agora? Como encontrar propósito após a aposentadoria

15 de junho de 2026

Por Dr. Murillo Capella


Lembro-me de dois momentos interessantes, mas também surpreendentes, que vivi dialogando com um jovem e um idoso.


O primeiro, de 19 anos, contou-me que, tendo sido aprovado em concurso para o serviço público, ao assinar o termo de admissão ficaria triste porque, a partir daquele dia, seria obrigado a trabalhar durante 35 anos para obter a sonhada aposentadoria, ou seja, aos 54 anos. Para os dias de hoje, ainda um “guri”. Pensava em aproveitar mais a vida do que em trabalhar. Soube, depois, que não durou no emprego.


Em contrapartida, tive a felicidade de conhecer e conviver com o ex-deputado federal constituinte, secretário de Estado da Agricultura e vice-governador de Santa Catarina, Victor Fontana, engenheiro agrônomo com vários cursos no exterior e que foi a mola propulsora da Sadia, em Concórdia (SC), empresa fundada por seu tio Atílio Fontana.


Nos nossos sempre prazerosos encontros, ele não se cansava de afirmar:

“A pessoa que trabalha e se aposenta obrigatoriamente aos 70 anos deve, no dia seguinte, continuar trabalhando, porque, se assim não o fizer, está se aproximando da morte.”


Sábias palavras. Ele viveu bem até os 101 anos.

Lendo frases do dramaturgo escocês Sir Walter Scott (1771-1832), uma me chamou a atenção:

“Descansar em demasia é oxidar-se.”



Essa era a visão àquela época, dita num momento de grande lucidez.


A aposentadoria ao longo da história

No mundo, o primeiro país que criou um plano de aposentadoria foi a França, em 1673, construindo um sistema estatal exclusivo para os membros da Marinha Real. Dois séculos depois, esse plano também se estenderia para funcionários públicos.


No Brasil, não foi diferente. Sistemas análogos ao previdenciário surgiram a partir de 1888, beneficiando principalmente setores importantes para o Império: funcionários dos Correios, da Imprensa Nacional, das estradas de ferro, da Marinha, da Casa da Moeda e da Alfândega.


Mas foi apenas em 1923 que o Brasil viu o ponto de partida da história da Previdência Social como a conhecemos hoje.


Assim, a aposentadoria tornou-se um direito do trabalhador em qualquer área para prover sua existência quando completar seu plano de contribuição e atingir a idade legal.

Sim, vou me aposentar. E agora?

Qualquer que seja o tipo de aposentadoria, ficar em casa lendo jornal, assistindo programas de TV ou lendo bons livros. Apenas isso?


Essa conduta não é recomendável.


Além de medidas para cuidar da saúde, como alimentação adequada, exercícios físicos, relacionamento familiar e social, uso de medicamentos sob orientação médica e um planejamento financeiro adequado, é preciso ter consciência de que a longevidade do ser humano aumentou muito e continua aumentando.


No Brasil, quase 30% da população já é considerada idosa.

A idade prateada e o valor de continuar ativo

Essas pessoas atingiram a chamada “idade prateada”. Mas isso não significa deixar de trabalhar.


O talento individual não morre e deve ser usado em benefício próprio, de seus familiares e de seus pares.

Inúmeros exemplos poderiam ser dados. Porém, quero deixar aos leitores a reflexão de que, mesmo aposentado por tempo de serviço, não pare de trabalhar.

O poder transformador da solidariedade

Busque alguma atividade prazerosa, como ajudar ao próximo.


Se essa atividade lhe render benefício financeiro, complementando a aposentadoria, melhor. Mas, se não for assim, coloque na cabeça que não existe atividade mais emocionalmente compensatória do que a solidariedade.


Ajudar pessoas necessitadas com gestos de compaixão e carinho transforma não apenas quem recebe, mas também quem pratica esses atos.


Conheço muitas pessoas que exercem esses gestos e vivem bem consigo mesmas.

Uma reflexão para levar adiante

Encerro com palavras de Charles Chaplin:


“Chega um momento em sua vida que você sabe quem é imprescindível para você, quem nunca foi, quem não é mais e quem será sempre.”


Sejamos imprescindíveis!

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